Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
O Eixo aborda a complexidade envolvida na definição de conceitos e vocabulários no estudo do som no teatro, evidenciando a falta de clareza terminológica tanto no contexto da lusofonia quanto em outras línguas. Nesse sentido, um projeto internacional de glossário investiga como diferentes idiomas e áreas do conhecimento apresentam especificidades na compreensão do som teatral.
Um exemplo emblemático é o termo “sonoplastia”, exclusivo do português brasileiro e possivelmente criado para diferenciar profissionais do som em contratos de rádio. Essa investigação demonstra como palavras e conceitos atravessam fronteiras culturais e tecnológicas, revelando histórias, estéticas e contextos socioeconômicos relacionados à criação sonora no teatro.
A pesquisa terá início com a identificação de termos-chave a partir de bases de dados e acervos relevantes, que serão analisados segundo um modelo metodológico internacional. A equipe de pesquisa é diversa, reunindo representantes de diferentes línguas e disciplinas, e atua em colaboração com a École Universitaire de Recherche Translitterae, com o objetivo de investigar as chamadas “transferências culturais” na apropriação de tecnologias e conceitos entre distintas culturas.
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
O segundo Eixo do projeto concentra-se na compreensão da prática da criação sonora no teatro, investigando aspectos como os elementos sonoros que compõem um espetáculo, os profissionais responsáveis por sua criação, os documentos sonoros produzidos ao longo do processo criativo e as formas de interpretá-los. A partir de metodologias da genética da criação e da crítica de processo, adaptadas ao contexto sonoro, o estudo busca identificar e analisar os tipos de documentos relevantes para a constituição de um arquivo sonoro teatral, bem como estabelecer relações entre esses materiais.
A criação sonora no teatro é entendida como um processo essencialmente colaborativo, que envolve músicos, sonoplastas, atores, dramaturgos, diretores e outros profissionais. A pesquisa não tem caráter exaustivo; seu objetivo é oferecer contribuições iniciais e propor modelos que possam orientar estudos futuros. Para isso, conta com uma equipe diversa e multidisciplinar, formada por pesquisadores das áreas de teatro e música, técnicos e engenheiros de som, artistas e bolsistas, estes últimos responsáveis por acompanhar processos criativos a fim de compreender a produção e a organização da documentação gerada.
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Este Eixo tem como foco a preservação e a gestão de arquivos sonoros teatrais, fundamentais para a compreensão e a valorização da história e das práticas do teatro. Inspirado na experiência do laboratório THALIM, na França, que trabalhou com acervos amplamente conservados, como os da Biblioteca Nacional, e com arquivos de teatros históricos, como a Comédie-Française, o projeto brasileiro adapta essas metodologias a um contexto cultural e material distinto.
A colaboração com a École Universitaire de Recherche Translitterae e com especialistas como Elsa Marguin-Hamon e Nathalie Ferrand contribui para o fortalecimento de estratégias voltadas à conservação, à organização e à valorização dos documentos sonoros produzidos no Brasil. Paralelamente, o projeto dialoga com o campo das Humanidades Digitais, que investiga de que maneira o ambiente digital vem transformando os modos de pesquisa, organização e difusão de acervos, especialmente daqueles de natureza multimidiática, como os arquivos sonoros teatrais.
Nesse contexto, a lógica não linear do meio digital, em que hiperlinks conectam diferentes conteúdos sem uma sequência fixa, representa uma mudança paradigmática relevante para as ciências humanas. Essa dinâmica será explorada pelo projeto, em especial por meio das contribuições do PopLab, que oferecem reflexões e métodos para a análise das vozes de atores presentes em arquivos sonoros.
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
O quarto e último Eixo do projeto concentra-se no uso artístico de arquivos sonoros no teatro. Ele aborda dois aspectos principais: o emprego direto de documentos sonoros em espetáculos de caráter documental, conforme discutido por Denise Cobello, e a utilização dos arquivos como fonte de inspiração para criações artísticas, prática recorrente no coletivo grego Medea Electronique, cujos integrantes participam do projeto.
Esse Eixo tem como objetivo aproximar estudantes, artistas e técnicos dos arquivos sonoros, além de organizar, contextualizar e apresentar esses materiais de forma acessível, útil e inspiradora. O êxito do projeto não apenas contribuirá para suprir uma lacuna identificada na pesquisa em artes cênicas, conforme apontado pela Escola de Comunicações e Artes da USP, como também oferecerá aportes relevantes para áreas como antropologia, linguística, música e sonologia.