LUIZ PAULO PIMENTEL
Ator, performer, dramaturgo e pesquisador das relações entre teatro e política no Brasil. Participou do coletivo teatral [pH2]: estado de teatro e dos Ensaios ignorantes. Desde 2017 é autor de livros didáticos do componente curricular Arte para as escolas públicas do país, tendo algumas coleções aprovadas pelo Plano Nacional do Livro Didático. Participou do expediente editorial e escreveu uma coluna mensal na Revista Geni - dá pra qualquer um/a, dedicada aos debates sobre gênero, diversidade e sexualidade. No campo audiovisual, realizou dois filmes: O lugar mais inútil (2017), junto a Juliana Jardim e Miguel Prata e O rosto da mulher endividada (2015), junto ao [pH2], selecionado para a mostra de curtas do Festival de Tiradentes. Em 2025, foi premiado no Festival Curta Cinema pelo roteiro do filme A voz do mestre, assinado com Renato Sircilli. No campo das Artes Visuais, realizou, em 2018, a instalação cênica Um dia todxs nós seremos arquivo na CASA 1, centro de acolhimento LGBTQIAPN+ localizado no centro de São Paulo e, em 2019, junto com Juliana Jardim, a instalação Não se trata de curar: 133 conselhos. Nessa criação, ambos os artistas traduziram do francês o livro Semente de Crápula de Fernand Deligny (tradução publicada pela editora n-1) e o ampliaram dentro de uma sala do Complexo Hospitalar do Juquery em Franco da Rocha. Em 2023, com o mesmo livro, realizaram as performances 133 conselhos para adultos barulhentos, projeto contemplado pelo ProAC Performance. Em 2025 escreveu a dramaturgia Kidnapped: a training ground for the brutality that is coming, de Rodrigo Batista e Mariana Senne, com estreia no Brakkegrond em Amsterdã.
Título e resumo do projeto associado/vinculado:
Arquivo do teatro ruidoso: ecos de uma agonística entre cena e público no teatro brasileiro (1830-1870)
Este trabalho apresenta a consolidação de uma investigação sobre a relação agonística entre cena e público no teatro brasileiro do século XIX, com ênfase no período compreendido entre as décadas de 1830 e 1870. A partir da análise de jornais, crônicas e escritos polêmicos da época, examinam-se episódios recorrentes de interrupção, escândalo e conflito, como pateadas, vaias, disputas políticas e intervenções policiais, que atravessaram o cotidiano dos teatros e os converteram em arenas públicas de confronto. Longe de serem compreendidos como desvios ocasionais ou expressões marginais de desordem, esses acontecimentos são tomados como forças constitutivas do próprio campo teatral. A imprensa oitocentista emerge, nesse sentido, não apenas como fonte documental, mas como dispositivo ativo na produção, amplificação e enquadramento desses conflitos, operando simultaneamente como arquivo, tribunal e espaço de fabulação. Por meio de descrições, juízos morais e tomadas de posição política, os jornais participaram diretamente da regulação da conduta dos espectadores e da formulação de projetos de civilização do público. A noção de agonística entre cena e público é proposta como operador conceitual capaz de apreender esse campo de tensões, evidenciando o embate permanente entre práticas de governo — como policiamento, censura e normalização dos comportamentos — e formas de contraconduta exercidas pelas plateias, cujas manifestações ruidosas colocavam em crise hierarquias estéticas, autoridades políticas e pactos de espectação em processo de consolidação. Do ponto de vista teórico-metodológico, a pesquisa se ancora em uma perspectiva arqueogenealógica inspirada em Michel Foucault, permitindo investigar como regimes de poder, saber e visibilidade moldaram tanto o acontecimento teatral quanto seus vestígios arquivísticos. Ao compreender o escândalo, o ruído e a interrupção como operadores históricos, e não como resíduos a serem apagados, o trabalho propõe a construção de um Arquivo do Teatro Ruidoso: um arquivo atento às fraturas, instabilidades e disputas que atravessam a história do teatro, contribuindo para uma crítica das narrativas institucionais que tradicionalmente gestionaram a presença conflitiva do público.
Publicações:
SOUZA, LUIZ PAULO PIMENTEL DE. Da liberdade como benefício e encenada como mágica: uma crítica à tecnologia emancipatória posta em cena pelo movimento abolicionista. SALA PRETA, v. 24, n. 2, 2025.
SOUZA, LUIZ PAULO PIMENTEL DE. DA PATEADA: ecos de uma prática extinta, mas ruidosa. Revista Brasileira de Estudos da Presença, 14(4), 2024.
SOUZA, LUIZ PAULO PIMENTEL DE. Tragédia, destino dos ossos. SALA PRETA, v. 20, n. 1, p. 101-122, 2020.
SOUZA, LUIZ PAULO PIMENTEL DE. UM CRÍTICO E UMA PROSTITUTA: incursões do pensamento em direção ao espectador qualquer. Revista Urdimento, v. 1, n. 40, p. 1-24, 2021.
PIMENTEL, LUIZ PAULO; AQUINO, JULIO GROPPA . Um qualquer espectador: notas sobre um escândalo teatral. SALA PRETA (USP), v. 17, p. 156, 2017.